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Maquiavel e o foguete do crescimento infinito

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Autor: Alex Oliveira | Data: 11/10/2015 |

É impossível discordar de Olavo de Carvalho quanto ao fato de que o pensamento de Maquiavel, caso se tente entendê-lo como um sistema integrado e coerente, é realmente uma confusão demoníaca. Isso não quer dizer que é impossível extrair, aqui e ali, da leitura de Maquiavel, uma ou outra ideia interessante embora, sem dúvida, seja possível encontrar as mesmas ideias expostas com mais clareza e precisão em outros autores.

Refiro-me especificamente à percepção de que o sucesso ― seja na política, nos negócios ou em qualquer área da vida ― é resultado de uma combinação de “virtù” (“virtude”) e occasione (“ocasião”), isto é, de competência, mas também de sorte (ou “Fortuna”, como diria Maquiavel); de talento, mas também de oportunidade; de inteligência, mas também de ajuda divina.

A “virtù” é a semente, a occasione é a terra fértil. Jogue uma boa semente em areia seca e ela definhará. Plante sementes murchas em terra fértil e nada nascerá.

Só haverá sucesso, em qualquer área de sua vida, quando sua competência encontrar uma oportunidade de se expressar e, também, quando as oportunidades o encontrarem preparado e treinado para não desperdiçá-las.

Em Administração de Empresas em geral e, mais especificamente, no campo da Estratégia Empresarial e do Planejamento de Marketing, esse princípio elementar se expressa na ideia de “ambiente de negócios”: somente quando o “ambiente interno” e suas “variáveis controláveis” estão perfeitamente ajustadas às oportunidades propiciadas pelas “variáveis não-controláveis” do “microambiente” e do “macroambiente” é que o sucesso se torna possível.

No entanto, esse conceito parece complexo demais para cabecinhas confusas, de modo que as palestras mais disputadas e os livros mais vendidos são, justamente, aqueles que vendem a ideia equivocada de que o sucesso, empresarial ou pessoal, não passa de uma questão de virtù. Um exemplo recente é o do livro “Rocket: Eight Lessons to Secure Infinite Growth ” (“Foguete: Oito lições para assegurar crescimento infinito”), de Michael Silverstein, Dylan Bolden, Rune Jacobsen e Rohan Sajdeh, do Boston Consulting Group, com lançamento previsto para este mês.

Para início de conversa, a promessa de “crescimento infinito” é suficiente para jogar por terra a credibilidade da obra. Nenhum profissional sério e qualificado de Economia e Administração concebe honestamente a ideia de “crescimento infinito”, simplesmente porque:

  1. A expressão “crescimento infinito”, matematicamente definida, expressa a ideia de “∞ %” de crescimento, uma noção, em si mesma, absurda.
  2. Mesmo que os autores queiram se refugiar por trás da desculpa da “figura de linguagem” e afirmem que queriam dizer “permanente estado de crescimento”, eles têm a obrigação profissional de saber que essa é uma promessa também absurda, pois o crescimento de uma empresa depende também do crescimento econômico, da evolução do mercado, da ação dos concorrentes dentro e fora do país, entre muitos outros fatores que escapam ao controle dos executivos de qualquer empresa.

É evidente que um título honesto prometeria não mais do que “uma tendência de crescimento a longo prazo, sujeita a oscilações”, tanto quanto é evidente que um livro com esse título venderia muito menos do que outro que promete “crescimento infinito”.

Embora, em todos os casos revistos e analisados na obra ― por exemplo, do capítulo 1, de que você pode fazer download gratuito ― seja visível e evidente a integração de “virtù” e “occasione”, a tônica do livro é nas “regrinhas” e “receitas”, ao estilo “faça isso e aquilo e você terá sucesso”. Veja a forma da redação das “oito regras do crescimento infinito”:

Regra #1: Não pergunte aos seus clientes (porque eles não sabem até que você mostre a eles).
Regra #2: Corteje e seduza os seus maiores fãs (porque eles são absolutamente merecedores).
Regra #3: Sempre dê as boas vindas ao escárnio de seus clientes (porque você voltará mais forte dessa experiência).
Regra #4: Aparência é fundamental (porque as pessoas realmente julgam um livro pela capa).
Regra #5: Transforme seus empregados em discípulos apaixonados (porque o amor é infeccioso).
Regra #6: Impulsione suas relações virtuais (porque é isso que seus clientes estão fazendo).
Regra #7: Dê saltos gigantes (porque você não vencerá com passinhos tímidos).
Regra #8: Descubra o significado da palavra “esquismogênese” (porque ela salvará seus relacionamentos).

Sinceramente: há alguma novidade nessas “oito regras”, algo que você jamais tenha lido em qualquer obra sobre marketing e estratégia publicada nos últimos 30/40 anos? Bem, talvez haja alguma novidade real na palavra “esquismogênese”. Vejamos:

Bodin (1981) reúne os estudos das relações interpessoais realizados por vários autores:
a) Os conceitos de simetria e complementaridade propostos por Bateson em 1936, segundo o qual pessoas assertivas interagindo com pessoas submissas tenderiam a polarizar-se uma na outra, processo que ele chamou de esquismogênese complementar. No caso de pessoas assertivas interagindo com outras pessoas assertivas a tendência é manter uma igualdade uma com a outra, processo que ele denominou esquismogênese simétrica”. (PISZEZMAN, Maria Luiza R. Terapia familiar breve: uma abordagem terapêutica em instituições. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007, 2ª ed., p. 35).

Eis aí uma “novidade” prestes a completar 80 anos!

Enfim, é preciso viver, vender livros, ser convidado para palestrar e conquistar contratos de consultoria. Cabe a você decidir o que fazer com o seu dinheiro mas, considerando os fatos, você sempre fará melhor negócio espanando a poeira daquele velho volume do Philip Kotler abandonado em sua estante desde os tempos da faculdade e reler atentamente o capítulo a que os estudantes dão menos importância, em que ele aborda em detalhes “o ambiente do marketing”. Tudo o que você precisa saber para ter sucesso em seu mercado ― ou na sua profissão, ou em qualquer área de sua vida ― está ali, um conhecimento que podemos sintetizar em uma única frase: ajuste as coisas que você controla (isto é sua virtú) de modo a explorar as oportunidades oferecidas pelas coisas que você não controla (ou seja, as “occasioni”). Tendo em mente esse princípio, tudo o mais que você vier a estudar será colocado nesse plano de referência e você aproveitará muito melhor as ideias e exemplos que vier a absorver futuramente, inclusive de livros como o “Foguete do Crescimento Infinito” do Boston Consulting Group.







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